quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Jovens marinheiros

Não consigo precisar o ano nem a minha idade, essas coisas eu esqueço-me muito facilmente. Mas nunca me hei-de esquecer a embarcação que eu fiz.
Sou um indivíduo um bocado ansioso, quando quero uma coisa tem de ser muito rapidamente, faço o impossível para o concretizar.
A história passa-se em Lourenço Marque na antiga província de Moçambique, tinha eu uns 16 anos.
Sempre gostei da actividade marítima e de tudo o que se relacionasse com o mar, a pesca inclusive. Eu nessa altura andava a pescar nos paredões da marginal mas os peixes não eram muito abundantes ou então eu não era assim tão bom pescador como isso. Para resolver a questão das capturas decidi que o que dava era ir para o meio da baía pescar com apenas um pequeno problema, eu não tinha barco.
Depois de dar muitas voltas á cabeça decidi construir uma embarcação para ir á pesca só que não percebia nada de construção naval e também tinha a ideia que se me pusesse a construir a sério levaria um tempo infernal. Tinha que ter uma solução mais rápida.
Talvez influenciado pela descrição da Kon-Tiki me tenha decidido pela construção de uma jangada. Pensei, imaginei e descobri uma fórmula miraculosa. Pegar nas latas rectangulares de galão de óleo lubrificante, uni-las numa plataforma que era uma estrutura feita em madeira e tinha uma bela base de flutuação. Fiz as contas muito rapidamente, eu e o meu irmão pesávamos cerca de 100Kg os dois, éramos jovens e esgalgados, o que daria, contas por alto uma necessidade de cerca de 25 latas para suportar o nosso peso. Para dar forma e mais segurança duas câmaras-de-ar, uma avante e outra a ré. Visto de cima até parecia um barco.
Etapa seguinte era a de arranjar o material, a primeira tinha sido decidida em cerca de ½ hora de discussão altamente tecnológica. Começou então a ronda pelas estações de serviço á procura das famosas lata de galão. Foi um desespero até encontrar a totalidade das latas necessárias. Elas foram todas inspeccionadas para verificação da estanquicidade das tampas.
E começou a construção da tal nave que nós carinhosamente chamávamos de barco. Não existe nenhum documento que mostre ou relate com precisão o produto final mas ficou uma coisa de que eu, na altura, me orgulhei.
Mas faltavam os remos. Depois de uma pesquisa e busca por madeiras compridas para os fabricar, consegui de empréstimo um par de remos de um kaiak.
Eu e o meu irmão olhámos para a nossa obra com orgulho e fomos para dentro, já era hora do jantar. Tínhamos que nos preparar para o dia seguinte bem cedo pois tínhamos que levar o barco ás costas até á praia e faze-lo muito discretamente.
De manhã muito cedo, já acordados, engolimos rapidamente o pequeno almoço, pegámos no equipamento de pesca, saímos de casa e, juntos levantámos o barco, era pesadito e iríamos suar até o levar para a praia, para quem conhece Lourenço Marques teriamos que ir do bairro da Sommershield até á praia, ainda era um bocado.
Já o tínhamos na rua e com ele levantado acima das nossas cabeças começámos a andar. O clank, clank das latas era ensurdecedor até que ouvimos um grito.
- JIMMYYYYY!!!!!!
Minha mãe chamava-me da janela, tinha ouvido o ruído e ido espreitar para ver o que era.
- O que é isso!!!!
- Um barco, mãe!!! Exclamei eu já muito a medo.
Imediatamente a minha mãe estava na rua para “inspeccionar” a embarcação.
- Vocês não dão nem mais um passo!!!!! Gritou ela desesperada. E aos gritos chamou os nossos criados e obrigou-os a desmontar a embarcação e a destruir uma a uma a latas todas. Os cabos cortados, as latas furadas e as madeiras partidas, não ficou nada inteiro.
E nós os dois a olhar desanimadíssimos, não podíamos ir para o mar pescar…
E assim acabou tristemente a história do meu barco.
Ainda hoje, sempre que me lembro desse episódio me rio com a minha maluqueira de construir um barco de latas e fico triste pois nunca o experimentei. Uma coisa é certa, se tivéssemos ido para a água teriam que nos ir buscar de certeza, aquilo de manobrável não tinha nada…

Publicado no SOL no sábado, 5 de Janeiro de 2008 0:05

Lightering

Com o caso do New Vision, o super petroleiro avariado ao largo de Sines foi escrito e dito muita coisa. Muito infelizmente mostrando a total ignorância das pessoas sobre o assunto.
Fiz alguns comentários num semanário sobre o assunto e, então resolvi escrever este post.
A avaria do New Vision é infelizmente uma avaria típica de navios que apanham tempestades, aconteceu-me no velho Açor e andei num petroleiro o Erati acho eu que ainda sofria os males de uma avaria semelhante. A avaria é muito simples, devido á tempestade o paiol da proa alaga e danifica os equipamento que lá estão. No caso do New Vision o alagamento deve ter “queimado” todo o sistema eléctrico dos guinchos e também o sistema hidráulico tornando inoperativo as manobras de atracação e de fundear.
Estou a falar de uma avaria citando as notícias dos jornais, não estive lá para ver nem ninguém me fez relatórios nem descrições. Mas não devo estar muito longe da verdade. As causas do alagamento poderão ser várias, desde o erro humano até á cedência do material.
Entretanto falou-se muito da trasfega do crude de um navio para o outro, que era uma manobra perigosíssima e etc etc.
Sobre isso eu posso dizer que: Todas as manobras de transferência de um produto perigoso são cheias de risco, ele, o risco existe sempre. E que essas manobras são muito comum na vida de um petroleiro, essas manobras chamam-se de “Lightering”.

Elas são comuns porque a maioria dos petroleiros a partir de um certo porte (calado, parte imersa) não consegue entrar em muitos portos, especialmente nos portos do sul do Estados Unidos. Não nos esqueçamos que a América consome cerca de 25% do petróleo mundial e o fluxo de petróleo para aquele país é imenso. Esses mesmos navios quando chegam ás costas americanas o que fazem são operações de lightering para petroleiros mais pequenos, esses sim com dimensões suficientes para entrar nos portos. Estive embarcado quase 8 meses num navio da antiga Soponata que só fazia essas operações, recebia dos grande e levava lá para “dentro” o crude.
Eu sou um homem da máquina e não da ponte por isso a minha descrição não será tão técnica ou detalhada como eu gostaria pois durante essas operações eu estava mais entretido metido na casa da máquina do que no convés ou na ponte. Quando tinha algum tempo tirava algumas fotos.
Os navios encostam em movimento tendo o navio mãe (o grande que descarrega) as defensas montadas. As defensas são bóias, flutuadores de borracha que fazem a separação dos navios, não deixam que eles encostem um ao outro a fim de evitar avarias. Depois de encostados passam cabos e amarram-se um ao outro.
Depois de amarrados passam as mangueiras e o pessoal técnico das trasfegas, inspectores etc.

 Durante toda a operação somos vigiados por navios de suporte que dão apoio ás operações, são eles por exemplo que levam as defensas de um navio para o outro.


Enquanto recebemos ou descarregamos, consoante as situação em que nos encontramos estamos sempre de atenção, muitas vezes podemos estar a navegar a muito baixa velocidade e perto de nós existem sempre outras operações de lightering, nunca somos os únicos.



Depois de acabada a transferência do crude, desligam-se as mangueira, desamarram-se os navios e inicia-se a manobra de separação.



Nesta foto podemos ver os dois navios já separados e o navio mãe, que é o da esquerda, ficar com as defensas para poder receber outro e acabar de descarregar o produto.

 Como vêm, esta manobra é corriqueira para os homens do petróleo. Tem os seus riscos mas já está muito standartizada.
Mas atenção, ela tem de ser feita com bom tempo. No caso do New Vision se o queriam fazer deviam ter aproveitado o bom tempo que se fez até ao fim do ano. Agora têm mesmo que o atracar em Sines….

PS. Fotos de arquivo em que a técnica e a máquina eram outras.

Publicado no SOL na sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008 0:14

A última viagem do ano...

Última viagem do ano… atracamos em Lisboa para abastecer um porta-contentores e zarpamos para Sines, onde passaremos a Fim do Ano.
Fica aqui a imagem de Lisboa ao fim do dia 30 com a ponte em evidência e a luz espectacular de mais um pôr-do-sol.

Esta foto tem uma história engraçada. Tinha preparado as máquinas do navio para as manobras, fui até á ponte e fiz o seu arranque quando reparei no pôr-do-sol. Ganda foto! Exclamei eu. Ia a correr apanhar a máquina quando soou um alarme. Lá fui eu a correr aos palavrões ver ao que se passava, era um falso mas que nunca dispensa uma vistoria completa. A correr voltei para apanhar a máquina e fui para a ponte alta tirar o retrato. O momento ideal já tinha passado que fez com que o número de impropérios aumentasse exponencialmente. Disparei umas três vezes e fiquei satisfeito. Uma delas foi para o Olhares, esta, com o avião ao longe veio para aqui.
E com este post me despeço de 2007 desejando a todos os escritores do Sol, a todos os leitores das minhas balelas e, não resisto, a uma "pessoa" em especial um muito Bom e Feliz Ano de 2008….
Jimmy the Sailor
(a bordo do navio)
PS. E obrigado a todos os que me lêem…

Publicado no SOL na segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007 12:01

Flores

E, já cansado de tanta tristeza natalícia que até pareço um dos personagens de Dickens no Natal, o menino muito triste e muito pobrezinho que até dói, resolvi mudar de tema nos meus escritos.
Resolvi falar de flores, não tenho muito jeito e não é por causa da mania que “homem que é homem não gosta de flores”. Eu gosto muito de flores, especialmente para oferecer a uma pessoa que fica com uma alegria imensa e vai logo a correr arranjar a jarra. Eu, sou um parasita, um parasita de emoções, vou logo a correr atrás dela para beber da sua alegria e do seu amor pelas flores.
(hummmmm!!!! Acho que vou apanhar por estar a escrever isto!)
Mas voltando ao “negócio” das flores, eu até as prefiro num vaso do que em bouquet. No vaso estão vivas e eu gosto de tratar delas e vê-las crescer. A minha profissão não me permite que o faça pois durante as minhas ausências elas ficam cheias de saudades e murcham.
Em suma, não tenho jardim mas tenho uma varanda imensa que eu e a minha mulher enchemos de plantas que são tratadas carinhosamente por todos os entes da casa, excepto um, tem a mania de usar os vasos como urinol, o desgraçado do meu gato Nobita Flores (sim, é esse o seu nome).

 (as cores morreram um bocado quando passei a foto Sad)
Elas, ás vezes, muitas felizmente, tomam aspectos que são uma verdadeira maravilha para quem gosta das artes visuais, não me canso de as fotografar. Mas tenho que fazer um pequeno parêntese, a minha mulher também fotografa as flores e outros motivos, não tem tanta técnica como eu mas tem um sentido estético muito mais apurado do que eu, vejam as fotos dela no Olhares….
Eu limito-me a fotografá-las de vez em quando e até faço umas gracinhas especialmente com as nossas buganvílias…

A outra faceta de ter plantas na varanda é o facto de elas atraírem uma miríade de bicharocos interessantes, lagartos por exemplo nunca os consigo apanhar, o Lemmy (o meu outro gato) e o Nobita chegam normalmente primeiro o que faz perder a estética ao lagarto. Umas libélulas, ás vezes umas lagartas peludas que põem a minha mulher a correr toda horrorizada e, ás vezes, também caracóis.
Um deles, depois de uma corrida desenfreada pela varanda fora lá o consegui apanhar, foi estafante mas consegui.
Pu-lo num prato com uma folhinha de alface e fotografei-o.
Acabada a sessão, o caracol e eu já éramos tu cá tu lá, fiquei naquela posição, o que iria fazer com o caracol? O desgraçado iria atacar as minhas plantas e devorá-las e eu não poderia fazer-lhe mal depois do companheirismo da sessão fotográfica. Olhei para ele e os nossos olhos encontraram-se….

E depositei-o carinhosamente no quintal da minha vizinha que tinha um relvado com aspecto muito delicioso (ponto de vista caracoliano).
Estou á espera de ir para casa ver que bichos por lá rondam e que plantas novas têm nascido…

Publicado no SOL na quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007 17:29

Eu estava lá...

Dia de Natal, para mim 24 é que é Natal, é o dia das prendas e acabou-se, dia 25 é apenas feriado e dia de brincar com os brinquedos novos. Continuando, dia de Natal era o dia de chegada do novíssimo navio de passageiros da Cunard, o Queen Victoria. Estava marcada uma recepção daquelas que nós os portugueses gostamos de fazer ás realizações do outros, íamos receber o navio, na sua viagem inaugural, com pompa e circunstancia e isso é como se vê nos filmes dos outros, o navio a entrar e os rebocadores ao lado com os canhões de água a toda a força saudando o navio.
P navio é imenso e bonito mas, estragou a festa, chegou ás 6 da manhã, estava escuro e, acho, que se alguém estava á espera dele devia estar a chamar muitos nomes aos seus superiores. Em vez de estar no meio dos lençóis, aconchegado e quentinho, tinha de estar ao frio da madrugada de Dezembro, esperando um navio que, se calhar não podia entrar e onde os outros passavam umas ricas férias.
Eu estava a manobrar, a encostar a outro navio para o abastecer, não tenham pena de mim, esta é a minha profissão e este ano calhou-me a mim estar a bordo. Como estava a dizer, estava na ponte quando vi o Queen Victoria e as famosas manifestações de recepção ao navio na sua viagem inaugural.

Se algum repórter precisar de uma cópia da fotografia esteja á vontade que lhe enviarei uma cópia em troco de uma garrafa de Whisky escocês, de malte de preferência. Eu estava lá e registei o momento.
É um belo navio sem dúvida nenhuma….

Feliz Natal a todos os marinheiros e suas famílias.
Feliz Natal a todos os bloguistas do SOL.
Feliz Natal a todos em geral.

Publicado no SOL na segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007 15:42

Natal a bordo...

Este ano como em muitos outros vou passar o meu Natal a bordo da minha nau Catrineta.
O espírito já se instalou….


Mas nem tudo é mau, o pessoal faz um esforço, a companhia e os clientes também. Tivemos um cabaz e ganhámos um leitão para a festança.
E, como em todos os anos, come-se, bebe-se (felizmente moderadamente) e no fim… vai tudo para os cantinhos falar para a família.
È a nossa vida de marinheiro, como diz a canção, é assim e não há volta a dar.
FELIZ NATAL A TODOS

Publicado no SOL, domingo, 23 de Dezembro de 2007

A Morte de uma lula...

Tinha acabado de jantar quando o cozinheiro me chamou para ir á cozinha ver uma coisa. Tudo muito em segredo pois o que ele me ía mostrar se fosse conhecido pelos outros iria dar uma guerra desgraçada.
Ele tinha ido espreitar umas linhas de pesca penduradas no convés e numa delas tirou uma lula enorme, de uns 60 a 75 cm de comprimento, era mesmo grandinha, a maior que tinha sido pescada nos últimos tempos. Realmente se o dono da linha sonhasse apenas que lhe tinha sido gamado uma lula daquele tamanho aposto que atiraria o cozinheiro ao mar, especialmente sendo pessoal originário da Nazaré que acham que todos os peixes do mar lhes pertencem.
E estava eu a olhar para a lula que calmamente se afogava na pia do lava-loiça. Ela arquejava e soprava tentando pôr o seu sistema de jacto em funcionamento, a lula foge ou ataque com movimentos muito rápidos devido a propulsão a jacto, projecta água a grande velocidade imprimindo-lhe grandes velocidades. E ela ia-se afogando calmamente com uns grandes olhos negros visando o vazio.
Tentei interiorizar o que sentiria a lula. Sentiria a angústia de um morte próxima? Acho que sim, é um ser vivo logo tem instinto de sobrevivência que lhe dará um sentimento ou algo mais do tipo lula mas semelhante ao terror da morte. Fiz um esforço para me meter na pele da lula, não o consegui, apenas a percebi. Eu já estive em situações de grande aflição, especialmente devido a colapsos por desidratação e acumulado com erros de diagnóstico (meus, pensava que estava com hipertensão) e medicação errada (falta de médicos a bordo) pois tinha tomado comprimidos SOS para a tensão, tipo nitroglicerina, e estive quase a apagar-me, a minha tensão chegou aos 4/2, senti-me mesmo muito perto do ponto final. Lembro-me do que senti e do que passei e olhando para a lula que morria calmamente, sem gritos e apenas com aqueles grandes olhos eu compreendi-a. A vida tinha-lhe sido madrasta.
O cozinheiro meteu-a num saco de plástico para a esconder de olhares curiosos e pô-la na arca frigorífica onde a lula adormeceu devido ao frio e morreu....


Foi publicado no SOL no sábado, 22 de Dezembro de 2007