domingo, 11 de março de 2012

Uma curta - A inquirição.

O meu navio sofreu uma pequena avaria, uma pá do hélice partida e por isso fomos para a Lisnave em Setúbal fazer a reparação em doca seca. Até aí tudo normal, as decisões tomaram-se e o trabalho decorria sem interrupção. Até que, á tarde, recebi a comunicação do comandante que eu, ele o comandante e o 2º piloto teríamos que ir á Capitania prestar declarações.
O Comandante como mandam as regras tinha feito um "Protesto de mar" com a descrição da avaria, o que tinha sido feito e as decisões tomadas, também tudo normal e habitual. Só que as nossas autoridades, nesse caso a Capitania decidiu (se o tem que fazer é uma asneira) fazer inquirições sobre o protesto que tínhamos feito, ou seja, nós protestámos e a Capitania queria interrogar-nos sobre o protesto em si.
E lá fomos os três á Capitania tendo eu como Chefe de Máquinas, interrompendo o meu acompanhamento dos trabalhos em curso.
Na capitania fomos interrogados cada um por um inquiridor diferente, eu fui interrogado por uma senhora até bastante simpática mas que duvido da sua capacidade técnica para fazer tal inquirição, fui despachado ao fim de 5 minutos com o resultado de ter confirmado os dados já descritos. Os outros ficaram quase uma hora para.... confirmar os dados já por nós descritos no tal Protesto de Mar. Eu compreenderia esta inquirição se alguém ou algum organismo tivesse posto em causa as nossas declarações mas nada...Tive uma sensação de ser um criminoso ou suspeito de crime grave ao ser "inquirido" desta maneira.
E lá voltei para os meus trabalhos chateado com esta interrupção pois é sempre uma quebra no ritmo.


Publicado no SOL no sábado, 27 de Agosto de 2011

Trabalho de precisão...

Entrei na oficina e vi na bancada este aparato.... não resisti!


Não é preciso dizer que depois encontrei o objecto desta intervenção no caixote do lixo... Já não tinha a máquina fotográfica comigo.

Publicado no SOL no domingo, 21 de Agosto de 2011

Doença a bordo...

Estar doente a bordo é uma das coisas que o marujo não gosta, especialmente quando a maleita é daquelas bem desagradáveis, daquelas que deixa num cantinho uma simples gripe das galinhas. Estou a falar de uma mera cólica renal.
Embarquei, agora estou num porta contentores a fazer a carreira dos Açores, agora navego outra vez e até me afasto da costa. Como dizia, embarquei vindo de férias, segui para Leixões e depois a caminho de Ponta Delgada. No meio do oceano, acordei com uma vontade de mictar muito grande, acho muita piada á palavra mictar, e lá fui despejar águas á casa de banho. Só que não havia meio de mictar, estava preso. Sentei-me para relaxar e comecei a sentir uma certa dor / pressão na parte de baixo da bexiga, a dor aumentava mas como ela, a dor, é uma maricas trouxe como companhia a sua amiga a Náusea. Estava surpreendido, já tinha tido alguns maus bocados mas dessa maneira nunca. A dor até se suportava bem mas a náusea era terrível. De repente estava a sonhar e a acordar sem me lembrar onde estava e com uma certa dores de cabeça. - Bolas além das dores na bexiga e da náusea tenho dores de cabeça, isto está mau!! Só passados uns minutos me apercebi que estava deitado no chão da casa de banho, um cubículo minúsculo, todo torcido. Não tinha forças para me levantar, estava meio tonto e com dores de cabeça. Fiz um esforço enorme e levantei-me, estava todo molhado e apercebi-me então que me tinha mictado todo... olhei para o espelho e por cima do olho direito estava pousado o Galo de Barcelos.
O navio continuava a navegar e eu arranjei-me, fui tomar o pequeno almoço, e fui para a casa da máquina mas depressa voltei para o camarote, estava ainda todo abananado. Felizmente a crise foi curta pois não tive mais dores e consegui fazer a minha vida normalmente. Em S.Miguel falei com a minha médica em Lx e expliquei-lhe o sucedido, aconselhou-me a ir ao hospital fazer uma eco renal.
Lá fui eu chatear os senhores doutores do hospital de S.Miguel. O atendimento foi perfeito, o sistema funcionou na perfeição, as pessoas simpátiquíssimas mas por mais que dissesse que estava embarcado e que queria uma eco apenas tive direito a um Rx e umas análises e como não tinha patologia que justificasse não ia fazer a ecografia. Os exames não mostraram nada. Muito calmamente expliquei tinha não tido nenhum ataque de loucura e dado uma cabeçada na antepara e posto o meu olho direito todo negro, tinha desmaiado com uma dor localizada na bexiga mas foi inútil... eles tinham cumprido com o processo e assim mandaram-me de volta para o mar.
Só que sou teimoso e no Faial fui ao hospital outra vez, fui atendido por clínicos espanhóis, simpáticos e eficientes. e o resultado da eco foi simples:
- Pedras nos dois rins sem inflamação das vias
- Pedra na próstata ou na uretra prostática, a tal desgraçada que me tinha atirado para o chão.
Fui receitado e avisado que quando ela, a pedra, sair aquilo iria doer e para isso tenho as drogas receitadas. Vou fazer o meu embarque de 3 meses com a espada de uma cólica renal em cima da minha cabeça. Pode ser que ela saia um dia destes....
Os médicos de Ponta Delgada deveriam ser formados em não mandar para o mar um doente sem terem a certeza absoluta, nós não temos a ambulância dos bombeiros ali ao lado e se estamos no meio do oceano temos que aguentar e rezar que aguentemos. Infelizmente já tive muitos casos a navegar.... esforço a mais....
Agora sorrio e digo: A dor é sinal que estamos vivos.... e seja o que Deus quiser!!!!

PS. conto este caso pessoal para quem ler esta narrativa se possa aperceber-se de quanto vulneráveis estão os marinheiros fechados num navio no meio do oceano.

18 de Agosto de 2011, Horta e com uma leve dor....

Publicado no SOL na quinta-feira, 18 de Agosto de 2011

Crónicas Inglesas II

A história começa Domingo dia 10 de Abril de 2011, tinha acabado de chegar do Algarve onde tinha ido para uma almoçarada de Xamuares Kocuanas e um passeio para ver e fotografar as belas paisagens da costa de Albufeira.

Mas eu sou um gajo moderno, fanei o GPS á minha cara metade, a verdade é que ela mo ofereceu mas fica-me melhor dizer que o fanei e comecei a preparar a viagem. Liguei o bicho ao meu portátil onde tenho a aplicação do Garmin, introduzi as coordenadas, tanto de Heathrow como de Pembroke, coordenadas essas sacadas do Google Earth e comecei a preparar a rota.

O GPS da minha bondosa (foi ela que me emprestou o GPS) cara-metade só tinha os mapas Ibéricos por isso carreguei com os mapas necessários á viagem. Por via das dúvidas imprimi um roteiro que saquei do Google Maps. Todo contente relaxei e comecei mentalmente a meter mudanças com esquerda e a tentar lembrar-me dos meus tempos de Moçambique onde se conduz á inglesa.

2ª Feira foi um dia um bocado atarefado, tomar conta da neta pois a tratadora dela estava doente e eu tive que ficar com a miúda, felizmente o stock de “pintarolas” estava em cima e o dia passou-se até eu me ir deitar já bastante tarde e acabar por quase não dormir, acordei ás 05:30 da manhã pois queria estar no aeroporto á 08:00.

Apanhei o comboio, não valia a pena a pequena ir levar-me ao aeroporto pois iria apanhar um trânsito terrível, apanhei o táxi e desembarquei na Portela. Fiz o check-in, fui beber um café e pus-me a esperar lendo um livro no meu Kindle e ouvindo música no meu iPod, como eu disse sou muito moderno.

Fiz o voo sem novidade apenas com o detalhe que depois de ter bebido o café do avião tive, mesmo antes de aterrar, ido a correr ao WC, digamos, um bocadinho de aflitos.

Finalmente em Heathrow onde me dirigi ao balcão da Avis para levantar o meu carro. Não era assim tão simples, tive que apanhar o transfer da Avis para o seu centro de recolha e apanhar lá o carro. O meu trajecto impresso saía do Terminal 1 mas eu confiava no meu GPS.

Quando vi o carro lembrei-me do meu filho mais velho, um Alfa Romeu de 2 portas todo XPTO, para mim um problema pois não gosto muito de carros muito modernos e cheios de electrónicas, a minha modernice tem limites.

Embarquei a minha bagagem e comecei a rolar com a vozinha doce do GPS a dar-me indicações bastante precisas e eu comecei a relaxar.

Ia já numa auto-estrada todo contente e super confiante na máquina maravilhosa que é o GPS quando a vozinha doce me disse para sair á esquerda e depois á direita, estranhei mas como sou moderno obedeci… quando me lembrei que não tinha reprogramado o GPS depois do ultimo upgrade para que ele só tomasse as auto-estradas, uma contrariedade mas segui em frente, a conduzir já não podia começar a mudar os settings do aparelho, além de que com a pressa não o fixei no sítio mais acessível para o manipular, não contei com essa possibilidade.

Seguindo as indicações da vozinha doce comecei a estranhar não ver carros e apenas umas vaquinhas risonhas a olhar para mim com aquele ar bovino, comecei a ficar preocupado.

De repente caiu a realidade, o mapa do GPS ficou branco, sem estradas nenhumas e a voz doce já muito nervosa só repetia: “Recalculando, recalculando…”, eu estava totalmente perdido.

Mas apesar de ser moderno também sou marinheiro e já há uns anos, mesmo antes de haver GPSs por isso tentei acalmar-me e rumar na direcção de W / NW, ira para os lados do País de Gales. E guiei assim ainda umas milhas até entrar numa povoação e tentar pedir ajuda. Consultei o meu percurso impresso e resolvi apanhar a M4 e que me levaria até Gales. O sorriso do pessoal era delicioso, especialmente quando eu dizia que estava perdido e queria ir para Pembroke.

Com as indicações dadas lá fui andando e dei com a famosa M4 e apanhei-a logo…. Em direcção a Londres, foi um bocado frustrante. Enchi-me de coragem saí da M4 para fazer a inversão de marcha o que consegui com alguma dificuldade.
A vozinha doce não se cansava de me dar conselhos mas o aviãozinho (o boneco que a minha cara-metade escolheu para sinalizar o carro) estava sempre fora da estrada mas também verdade seja dita, ia mostrando a M4.

Já na M4 e em direcção ao País de Gales comecei a relaxar embora eu não tivesse uma ideia certa qual seria a saída. Conduzi assim muitas milhas até que a garganta já ardia de tanta secura, o estômago vazio e a bexiga cheia fez sair outra vez da M4 para ir para uma área de serviço, não são como as nossas em que entramos nelas e saímos muito facilmente, aqui essas coisas são um bocado mais difíceis.
Parei na estação de serviço, comprei uma água e dois pacotes de Oreos, souberam-me bem. Bebi um expresso duplo e fui para o carro, chovia.

E agora vão perceber porque não gosto de carros modernos, com a pressa e a chuva atrapalhei-me um bocado e já instalado meti a chave na ignição e népias, carro bloqueado. Entrei, saí, abri e fechei as portas com a chave e tentei as variações todas e aquela merda não desbloqueava.

Já me via a passar a noite na área de serviço com a porcaria do carro bloqueado até que decidi fazer outra tentativa. O carro abriu e no tablier pude ler uma mensagem: “Tentativa recente de intrusão”. Exclamei para ele furioso: Era eu seu burro!!!! Se eu posso ouvir a vozinha doce do GPS posso mandar passear o carro.

Saí da área de serviço e perdi a entrada na M4. Andei ás voltas um bocadinho, voltei á área de serviço e lá consegui dar com a entrada.

Fiz mais uma data de milhas, debaixo de chuva, trânsito e a escurecer mas começava a ver já sinalização em gaélico o que me dizia que já estava no País de Gales mas também não me ajudava nada pois é uma língua lixada.

Por volta de Cardiff a minha vozinha doce começou a fazer-se ouvir outra vez e parecia já recuperada da sua insanidade temporária quando me pus a pensar, eu gosto muito de pensar, o que teria acontecido. Foi simples, quando carreguei os mapas e o percurso o sistema apenas carregou o mapa da área de Heathrow e o de Pembroke, não pôs nada na zona intermédia o que fez a vozinha doce ficar maluca e baralhada.

E lá fui eu todo contente, já escuro até Pembroke Dock. Antes de passar o portão telefonei para o navio para saber onde eles estavam. Não estavam… estavam em Fishguard a abastecer e por isso por instruções do comandante tinha de ir passar a noite ao hotel, o King’s Arms Hotel em Pembroke. Fiquei a saber que Pembroke Dock é uma coisa e Pembroke é outra. Tive de parar para perguntar onde ficava o raio do hotel mas como sou muito moderno pedia apenas o nome da rua, introduzi no GPS e a vozinha doce levou-me até ao hotel sem falhar.

Instalei-me, jantei uma carne de porco acompanhado de uma “ale”, cerveja de cá e fui-me deitar, estava rebentado. Adormeci a sonhar com a vozinha doce….

No dia seguinte fui para o navio já sem percalço nenhum….

Publicado no SOL na sexta-feira, 15 de Abril de 2011

Crónicas Inglesas I

Pois... estou a trabalhar para os ingleses. Depois da venda do Galp Marine á J.H. Whitaker (Tankers) eu acompanhei o navio, provavelmente devido ao meu grande conhecimento das manhas e truques desta nave de olhos em bico (construído na China).
As minhas impressões iniciais foram boas pois as decisões durante a reparação em Lisboa eram tomadas rapidamente e sem aquele acanhamento tipicamente tuga mas verdade seja dita, não esperava milagres.

Logo á saída houve chatice, alguém se esqueceu de dar luz verde ao navio e o tal de sistema não dava autorização. O rapazinho que devia ter dado a tal luz verde já estava de fim de semana mas o português tem isso de bom, desenrasca sempre quando quer e precisa. Assim as autoridades lá nos deram o aval de saída.
E saímos para viagem já como Whithaven.
Foi uma viagem calminha, navio ainda cheio de tugas e alguns bifes (comandante, imediato e um chefe de máquinas a viajar como 2º para aprender como se mexe com isto).
E houve um tuga que desapareceu durante a viagem, fomos encontra-lo já á chegada, com uma cara amarela de tanto enjoar. Era a sua primeira travessia a sério.

E chegámos a Milford Haven onde o navio iria ficar mais uns dias para terminar umas reparações e inspecções.

Foi engraçado, as primeiras actuações no nosso equipamento foi com um certo ar de desdém de quem quer ensinar como se trabalha.... ao fim de duas tentativas ficou pior do que a reparação feita em Lisboa. E aconteceu com outra empresa e outro caso, duas tentativas e as coisas ficaram na mesma. E aqui o "Je" continuava a manter a sua "história" até eles aprenderem que burros estavam a ser eles. Engraçado, as relações melhoraram (com os reparadores).

Neste momento o navio já está todo (quase todo) "inglezado" e eu a tentar adaptar-me ás novas regras.

As piores regras que tenho de me adaptar são as relativas aos horários. Nós jantávamos ás 19:00, aqui os pequenos passaram para as 18:00. Pequeno almoço entre as 07:00 e as 07:30, substancial se necessário. Ao meio-dia sandocha que não há almoço para ninguém e depois o jantar ás 18:00. Felizmente que o cozinheiro tuga (aqui somos todos tugas) ainda cá estava e ía fazendo alguma coisa quente para o almoço.
O pior aconteceu quando chegaram os polacos que substituíram a marinhagem tuga. O cozinheiro e um marinheiro voltaram para a Tugalândia ficando cá outro pois sabia falar inglês. O que regressou não só não sabia falar inglês como nunca tinha viajado de avião, andava um bocado aterrorizado com a ideia de se perder no aeroporto sem saber a língua.
Como estava a dizer, chegaram os polacos e a hora do jantar passou para as... 17:00. Porra, eu que me deito sempre depois da meia-noite só posso dizer que ás 22:00 pareço um cão esfaimado ás voltas na cozinha á procura de um osso para roer.

Trabalho? Continua na mesma, já tive que desencravar os esgotos outra vez, esta merda não me deixa sossegado. De resto ando a acudir ás merdoncices arranjadas nas "reparações" desnecessárias feitas em Lisboa, mexeu-se em muita coisa e poucas melhoraram. Devagarinho vou lá.

Os meus colegas da Albion (acho que não estou a dizer asneira nenhuma), bem eu com os meus 56 anos sou o benjamim do grupo (os 2 outros tugas que cá continuam não contam pois em Março vão de vez), pois os meus digníssimos colegas têm de 62 para cima, aliás está tudo a chegar á reforma. Já ouvi alguém comentar que o Bob (64 anos), o 2º de Máquinas que agora está comigo, está já a pensar em não voltar.
Como são todos rapazinhos novos e de ideias frescas, com a agravante de terem navegado no mesmo navio uma década, andam agora todos chateados, a dizer que o navio não presta, pois por pura e simplesmente quererem operar este navio como se fosse o outro.
Vai haver problemas, aliás eles já começaram pois fazem ouvidos de mercador e não atendem aos conselhos, depois os equipamentos avariam.

As coisas são geridas de modo a que o navio á noite atraque no cais de Pembroke Port e aí passar a noite, o 1º comandante ia dormir a casa todos os dias. Nós tínhamos em Lisboa uma vida muito mais activa do que aqui (pelo menos até agora).


Quanto á terra não sei quase nada. Fiz uma saída em Milford Haven, fui ao Tesco (o Continente cá do sítio) e a convite do comandante fui a um pub junto ao navio beber uma "pint". Bebi uma cervejola escura, amarga mas que me soube muito bem, gostei. Só que tive que voltar para o navio pois o raio da bexiga não parava de ficar cheia só com o raio da "pint" de cerveja. Tirei alguma fotos em Milford Haven, uma delas que me enche de orgulho.
Em Pembroke fui 2 vezes a terra, Argos e Tesco. Argos é uma loja que vende essencialmente por catálogo mas que tem exposição e venda em alguns lugares, tem uma mesmo em Pembroke onde comprei um iPod. Também tirei mais umas fotos no caminho de ida e volta ao Tesco/Argos.
E não consigo descontrair lá fora, fico com a cabeça no navio. Embora agora tenha o 2º a bordo a tomar conta, foram muitos anos sozinho no navio, não consigo relaxar.


Não relaxo nem para ir atrás de nenhuma inglesa gorda que por aqui existem ás centenas.
Uma coisa as raparigas cá do burgo têm bastante desenvolvido, os peitorais. Normalmente estão dotadas de um peito generoso o que faz mal á vista e que já me tem causado quedas de tensão gravíssimas. Mas segundo me parece a xenofobia reina por estes lados. Verdade seja dita ainda não saí para lado nenhum para saber se convivem ou não, e também não tenho grande vontade de entrar num pub e estar a beber sozinho e também não sou do género de andar a meter conversa. Fico-me pelo navio, leio, fotografia e voltar a escrever umas crónicas.... ahhh e ouvir música que foi para isso que comprei o meu iPod.

Estas são as minhas impressões iniciais. Esta a minha visão da minha experiência nas terras de Sua Majestade.

Publicado no SOL no sábado, 26 de Fevereiro de 2011

A última viagem...

O Galp Marine foi vendido. Vai-se embora para Inglaterra operar em Pembroke sob os novos donos, a John H. Whitaker Tanker Company. vais fazer o que sempre fez bem aqui em Portugal, operações de bancas.
Por ironia do destino o Galp Marine abasteceu o seu último navio, já com extensão do período a pedido da GALP, devido a avaria / imobilização das novas unidades que o substituíram, o BAIA TRES e um novo tanker de nome BROVIC MARIN.


Na foto o ainda Galp Marine afasta-se do navio CALA PEDRA depois de cumprido o seu último trabalho. Sai com glória pois acabou por fazer onde os outros, as novas escolhas da GALP, falharam.


Nesta foto está a última tripulação portuguesa de navios tanques, da esquerda para a direita: imediato Ricardo Conceição, cozinheiro e marinheiro de 1ª Barbosa onde se distingue o seu peculiar capacete (para a fotografia), marinheiro de 1ª / bombeiro Sérgio e o marinheiro de 1ª Luis Gomes. Falta o comandante Alexandre Tenreiro que estava na ponte e o chefe de máquinas que estava atrás da máquina fotográfica (Eu).
Assim Portugal desfaz-se de mais um valor, cada vez existem menos pessoas certificadas para tankers, e mesmo havendo voluntários não existem navios para a certificação. Têm de a tirar lá fora e uma vez no exterior já não voltam.
Não me apetece escrever mais, não me apetece estender-me mais neste assunto, é por demais triste. Eu próprio vou para o mercado internacional pois as empresas portuguesas existentes ou já estão "tapadas" ou o nível salarial é porventura demasiado baixo.
O navio está, na altura em que o post está a ser escrito, em Sines, em operações de lavagem de tanques para de seguida ir para a doca e ser entregue aos novos donos que o vão caracterizar com as cores e nome da Whitaker, dando assim fim ao Galp Marine.
PORTUGAL é um PAÍS que se deve direccionar para o MAR, onde já ouvi isto????

Publicado no SOL na terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

O Fim...

Pois, como tudo o que é bom acaba, especialmente neste país. O Galp Marine vai-se embora, foi vendido e já no início do ano que vem vai abandonar-nos.
Negócios são assim, não se compadecem nem têm sentimentos, nós os homens sim, sentimos. O tráfego feito por este navio há já 5 anos vai passar a ser feito pelo Bahia III e segundo se consta pela anedota de navio apelidado de SACOR II. Também segundo se sabe essa anedota ainda não está totalmente escrita e nem se sabe se algum dia sairá do prelo e por isso os fretadores irão ter que arranjar um substituto para o Galp Marine. São negócios, alguns bem estranhos, mas o destino não deixa de estar traçado.
Tenho pena que num país onde os nossos doutos políticos acabaram de fazer discursos referindo-se ao futuro de Portugal, futuro esse que seria O MAR o país acaba de perder mais duas tripulações, navios já poucos existem agora são as tripulações a desaparecer pois o conjunto de profissionais que aqui está terão procurar ocupação ou lá fora ou em lugares de terra. Se calhar o futuro do país será o Mar mas a ver navios...
A foto publicada foi feita na última chegada a Lisboa vindo de Sines com o meu telemóvel. Agora é fazer os últimos abastecimentos, embalar a trouxa e entregar o navio aos novos donos.

Publicado no SOL na segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010