segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Uma viagem

Acordei cedo, muito cedo mesmo, estava cheio de dores. O navio nesta viagem vai um bocado vazio e por causa disso vibra um pouco mais que o normal, o normal já é muito mau. O navio além de vibrar tem um casario alto cuja estrutura base é ligeira fazendo com que funcione como um amplificador de vibrações, está-se melhor na casa da máquina ao lado dos motores do que no meu camarote, cinco pisos acima.
Já durmo no sofá para diminiur o efeito da vibração no meu organismo mas não escapo, todas as noites acordo de madrugada com dores nos rins, na próstata, na bexiga, nas costas, dormências na perna esquerda, já o trivial. O problema de acordar é que eu dificilmente volto a adormecer, acordo, dou umas voltas, casa de banho, bebo água, umas voltas, deito-me e fico de olhos abertos a olhar para o tecto.
Desta vez enquanto dava essas voltas todas resolvi espreitar para o exterior, era madrugada, o dia ia nascer, fui espreitar.
E consegui arrancar o suporte da cortina que com muitas imprecações e promessas de arraiais de porrada lá consegui fixar aquilo de novo e voltei a olhar para o exterior. A cor era espantosa, prometia um belo nascer do Sol. Arranjei-me, peguei na máquina e fui para o exterior.
Cá fora o ar estava fresquito mas aguentava-se bem, de pé ia tirando umas fotos, afinando a máquina, as aberturas velocidades e ISO e comecei a eserar pelo nscer do sol, queria apanhar o primeiro raio que despontasse.
De pé esperava e comecei a reparar na dificuldade de focar o meus olhos, fiz u esforço e vi que eles até nem focavam mal mas a vibração que eu sofria desfocava-me a vista. Estava de pé e a vibração do chão subia-me pelas pernas acima, percorria-me o corpo e chocalhava-me a cabeça, os maxilares vibravam. Fiquei felicíssimo da vida, mais umas histórias para contar ao meu gato Fu á lareira nas longas noites de Inverno.
O momento aproximava-se, o clarão do Sol que antecede o seu nascimento ía aumentando de tamanho e intensidade e eu disparava a máquina, queria apanhar aquele momento.
Era agora... e apanhei com uma baldaça de água na cabeça. O marinheiro de serviço estava no piso superior a lavar as passarelas e não me tinha visto. Dei um salto para o lado e fotografei mas perdi o momento por um ou dois segundos. Sabem uma coisa, não fiquei furioso, achei piada, como as coisas são, como a vida é. Consegui apesar de tudo fotografar um bonito nascer do Sol.

Antes do nascimento

Depois do nascimento e do banho

O resto do dia foi normal, esteve bonito e de mar calmo. Á tardinha voltei a equipar-me e fui até á ponte, ali não apanharia água na cabeça de certeza e podia despedir-me do meu amigo Sol...



E assim acabou o dia, a noite voltou a cobrir a Terra com o manto negro da escuridão polvilhado de estrelas.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Cemitério de navios????

Vésperas de Natal parados em Leixões a descarregar, íamos passar as Festas em Lisboa.
Aproveitei uma pausa para desenferrujar as pernas, necessito andar para manter isto mais ou menos funcional. Andando pelo cais vejo dois navios ali atracados de braço dado, já os conhecia, já lhes conhecia a história. Dois navios da extinta Naveiro, uma companhia que já se orgulhou de ser o maior armador português, como somos pequenos, uma companhia com 12 pequenos navio era o maior armador português.
A companhia caiu e se não morreu está moribunda com a extrema unção a ser-lhe ministrada. Só aqui em Leixões está parte da frota parada, abandonada, a apodrecer, 3 navios.
Andei por volta deles e fotografei-os, já sem pena, já sem mágoa, somos assim, um país de marinheiros...






O terceiro navio, o Coimbra está na outra extremidade do porto, não me apeteceu procurar nos meus arquivos a última foto dele deste ano, publiquei-a no Facebook, não vale a pena, este já é um assunto morto, moribundo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Ás vezes apanhamos banho....

Nesta travessia de Lisboa para os Açores apanhámos mau tempo, já tem sido norma neste embarque, e eu gosto de filmar e fotograar o mar. No sábado de manhã tentei mas a surriada era muita e desisti. Á hora do almoço a espuma chegava á vigia da messe. Depois do almoço abrandou um bocado e fui para o exterior, subi umas escadas, firmei-me bem para o que viesse e comecei a filmar.
O resultado é o que se segue:


Á tardinha íamos tendo uma desgraça mas isso já é outra história. Não, não se passou comigo.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A despedida


E assim ela se despediu....

O reboque do Hacinin Ahmet

Este navio já estava há já muitos e largos meses abandonado no porto de Ponta Delgada. Lembro-me da tripulação no ano passado a passar fome, sem dnheiro, sem apoios. O nosso imediato, Francisco Proença, organizou com permissão do comandante uma acção de ajuda alimentar aos homens.
Mais tarde o comandante foi interceptado pelas nossas autoridades, a tentar ir-se embora (fugir como disseram), no aeroporto. Foi levado de novo para o navio. Mais tarde as nossas actuantes autoridades lá deixaram a tripulação ir-se embora. Nunca percebi porque os retinham aqui no porto. Sem comida, sem dinheiro, sem combustível para as mais básicas necessidades eles estarem no navio ou não era a mesmíssima coisa. Coisas de autoridades, ás vezes difíceis de entender.

Hoje dia 5 de Dezembro de 2014 um rebocador vindo de Setúbal pegou no navio e levou-o. Tive a sorte de presenciar esse evento e filmá-lo.


Estava frio, estava vento e tive que andar depressa para apanhar o início mas consegui apanhar a manobra toda. Deve ser visível um pequeno detalhe que me surpreendeu, ficará para um post específico.

E assim lá se foi o navio embora.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Enquanto navego...

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O tempo melhorou mas a noite foi uma grande merda, de manhã quando me apresentei para o pequeno almoço a minha cara estava linda, o pessoal até comentou. Realmente dormi mal, dormi no sofá e acordei várias vezes, balanço e algumas dores. Estou a ficar um maricas de primeira. Também chamar de pequeno almoço á aquela coisa que tomo. Um pedaço de leite quente e café de saco que além de ser de qualidade duvidosa não tenho mesmo dúvidas sobre a qualidade da confecção, uma grande porcaria. O cozinheiro acorda, aquece o leite, faz o café de saco e "manda-se para o cavalo" e ás vezes quando a preguiça aperta re-aquece apenas o café do dia anterior. Saudades da velha marinha onde o pequeno almoço era de garfo para quem queria. Eu tomo esse horroroso café com leite porque é purgativo e faz-me despachar logo de manhã cedo todas as minhas necessidades, mais um sintoma de velhice e senilidade, falar das vezes e como vou á casa de banho. Acabo por comer ás dez, na hora chamada de "coffee time", este foi um hábito que transpus para casa. Acordar cedo, alimentar as feras, café com leite, caminhar e depois comer qualquer coisa estando pronto para as lides da casa, em casa sou um marido precioso pois trato de quase tudo da casa, isto não é só perseguir a pequena é ajudá-la também.
.....
(Extractos do meu texto "Crónicas")

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Pedaços de vida de um marinheiro.

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Pelo menos tenho projectos. Tenho saudades da vida. De sentir vida, de me sentir vivo. Aqui morre-se lentamente, desgastamo-nos, envelhecemos. Já perdi a paciência de aturar merdas, de aturar mentes distorcidas donas da verdade, coisas parvas e parvoíces. Cada vez tento mais viver e deixar viver, exprimo a minha opinião mas não tento impô-la, tenho apenas direito a ela. Os outros acham as suas opiniões como verdade absolutas, são tão pequenos na sua tacanhez.
Estou com saudades de paixões e amores. Tenho saudades da minha mulher, a minha paixão e o meu amor eterno. Tenho saudades dos meus novos amores e novas paixões, fazem-me viver. As mulheres são muito engraçadas e muito complicadas mas é aí que reside a sua graça.
Tenho saudades das minhas netas. Tenho saudades dos meus filhos. Sinto-me só e com poucas forças para aguentar. Vou ter que me suplantar, vou ter que cerrar os dentes. Para compensar vou ter muito pouco juízo, evitando magoar quem quer que seja. Colorir umas amizades. E continua a doer-me a cabeça. O pé grita por seu lado que ali está, chato e rezingão e eu que ature isto, eu que me ature a mim mesmo.

(Extracto das minhas Crónicas)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ainda cá está...

O Coimbra, navio da Naveiro ainda aqui está semi-enterrado á espera de soluções. Sei que uns navios da Naveiro tinham passado para a alçada do BES, coisas de contas não pagas e etc. Agora com a crise no banco é que isto não se vai mesmo resolver.
E tivemos nós uma marinha mercante. 



terça-feira, 11 de novembro de 2014

O regresso

Hoje foi dia de regressar ao navio, regressar á velha vida errante. não estou muito satisfeito, gostava de estar em casa. Isto já me aborrece, tenho a sensação de não estar a realizar seja o que for, estou aqui apenas para isto poder andar, é indiferente a pessoa que aqui está.
Já fiz a primeira viagem, um certo balanço mas nada de especial, os velhos reflexos regressam embora bastante enferrujados.
Doem-me as costas, o balanço, a vibração martirizam-me o esqueleto. Tenho de enrijar a musculatura dorsal sem danificar a coluna.
Tento continuar com os meus exercícios, já usei a bicicleta, 20 minutos, simulei os exercícios da fisioterapia mas senti falta da minha fisioterapeuta, gostava de trabalhar com ela.
Logo, no cais de Leixões irei fazer uma caminhada, vou ter que gostar de caminhar em Leixões, Ponta Delgada, Praia da Vitória e Horta, é o meu destino, caminhar o resto da vida e é se quero ter um certo conforto no futuro.
Estou no camarote á espera da chegada, manobras de chegada, ainda não rotinei bem a minha vida, tenho de voltar a readaptar-me, já começa a ser cansativo.
Falei, falei e no fim estou a ser injusto, tenho de fazer uma nota á recepção feita pelos meus colegas, foi calorosa. Fiquei sensibilizado.
Estou com saudades das minhas meninas, todas elas, todas por quem eu nutro amor, carinho, amizade e paixão.
Continuo a olhar para o horizonte...


Bordo, 11 de Novembro de 2014

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Crónica de uma docagem (parte IV e final)

Doca de Alcabideche 2014-09-18  22:34

Saído da doca já há uns tempos e em pequenas reparações e afinações no propulsor de bombordo.
Os danos da grande intervenção afectaram especialmente o sistema de controle do passo que não é executado de forma original causando um trabalhar irregular.
Estando já na terceira intervenção por empresa externa na afinação do funcionamento do propulsor nota-se um aumento de potência mas a irregularidade mantem-se temendo-se que o dano seja irreversível. Embora a situação não se mostre promissora nesta questão da irregularidade continuam-se com as acções de manutenção com vantagens inquestionáveis para o navio.

Espera-se que depois da inspecção no final do mês esteja pronto para entrar em operações.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Crónica de uma docagem (parte III)

Doca de Alcabideche 2014-05-29 03:30

Confirma-se os tempos de trabalho do gerador de portos, não mais do que três horas, depois disso vêm sempre uma série de alarmes no propulsor de BB.


Com o reinício da navegação toda a linha afectada sobreaquece e entra em alarme. Mesmo com a inclusão de novos supressores de ruído nas linhas de instrumentação os sinais continuam a aparecer. Aparentemente o novo trabalhar do propulsor vais provocar algumas erosões que se auto reajustarão. Até lá todo o processo será moroso e de grande instabilidade tanto nos alarmes como no funcionamento. Vai ser um processo semelhante a uma rodagem com a desvantagem de um processo de transmissão de sinal disfuncional e de recuperação lenta. As peças não podem ser substituídas pois o seu fabrico foi há uns tempos descontinuado mas pode-se alterar a programação dos controladores de modo a aliviar a situação.


Teme-se que nos próximos tempos o relatório sejam todos semelhantes e por isso deixarão de ser diários. Não há necessidade de intoxicar os registos com informação redundante.


Em caso de necessidade poderei sempre responder a questões sobre a situação.


Bordo, 29 de Maio de 2014, ás 04:05.




Doca de Alcabideche 2014-05-28 05:00


Decididamente o gerador de portos está programado para só funcionar 4 horas e depois disso entra em auto shutoff ficano o gerador prinipal ao quadro.


As provas de mar em águas restritas foram bastante satisfatórias quase sem alarmes no propulsor de BB. Aliás tem-se feito um esforço para equalizar as potências dos propulsores de modo a não afectar a estrutura.


Neste momento ligeiro mau funcionamento do propulsor de BB que obriga a que se esteja presente na casa da máquina para manter os sistemas sob vigília. Este pequeno mau funcionamento e respectivo alarme deriva do atraso no fornecimento de aditictivos e atenuadores de ruído nos sinais da instrumentação, ruptura de stock no fornecedor.


A reparação efectuada na canalização principal das cablagens da instrumentação está em boas condições tendo já sido retiradas as abraçadeiras que mantinham a soldadura em posição, estando neste momento em observação podendo dentro de 24 horas ser decapada e pintada.


A sociedade classificadora recomenda mobilidade reduzida e alguma navegação costeira não podendo ultrapassar as 6 milhas de costa. Interdição completa de movimentação e transporte de carga mantém-se.


Uma vez que a operacionalidade comercial se encontra inibida aproveitam-se os sistemas para reorganização e gestão de fluxos de informação, actividade esta constantemente vigiada pelas autoridade portuárias e guarda fiscal para detecção de transporte de carga ilegal.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Crónica de uma docagem (parte II)


Doca de Alcabideche 2014-05-27  11:00

Gerador de porto começou a trabalhar sem problemas e naturalmente mudado para o gerador principal de forma natural.
Começou-se a navegação em águas restritas mas já provocou queixas das autoridades portuárias por estar a provocar forte ondulação nas margens.
Ainda existem alguns alarmes no propulsor de BB mas segundo técnico do fabricante são apenas problemas de sinais na instrumentação e por isso passar a fazer a monitorização através da instrumentação local.
Alteração nos timings e tipo de operações de manutenção.
Restante equipamento em funcionamento normal.



Doca de Alcabideche 2014-05-27  04:00

Após revisão pela sociedade classificadora feita no dia anterior o inspector retirou as protecções á soldadura para inspecção á sua qualidade e estrutura. Passou no teste de qualidade.
Foi emitido o certificado de navegação em águas restrictas o que deixou o armador bastante satisfeito.
Reavaliadada toda a dosagem dos tratamentos químicos aos combustíveis, águas de caldeira e dos propulsores.
Reforçados os settings para melhor funcionamento do gerador de portos com resultados já evidentes.
Aconselhada a locomoção em águas restrictas com ajuda de rebocador em caso de necessidade especialmente nas largadas e / ou atracações. Quando atracado já pode levar o trim até aos 90º sem dano para a fractura reparada.
Aconselhado o reforço de potência no propulsor esquerdo a fim de não causar danos estruturais ao navio.
Embora com certificado de navegabilidade em águas restrictas mantém-se a proibição de navegabilidade com qualquer tipo de carga. Não aconselhado o abastecimento de bancas em grande quantidade para não aumentar muito o deslocamento.
Diminuição da utilização de supressores de ruído nas electrónicas pois causavam o aparecimento de ecos falsos no radar e baralhavam as cartas do ECDIS.
O comandante fez curso de "refresh" na operação e manutenção do navio. O chefe de máquinas obrigado a cumprir os planos da superintendência e obrigado a utilizar melhor os equipamentos.
Aprovadas as operações de lightering desde que não cause esforço estrutural.
Recomeça-se a desenhar no futuro capacidade de navegabilidade e operacionalidade.



Doca de Alcabideche 2014-05-26  06:30

Os tempos de trabalho do gerador de portos continuam muito curtos começando a causar stress nos geradores principais.
Continuam os problemas no propulsor de BB notando-se esforço e sobreaquecimento dos mesmo. Os níveis dos sinais de feedback na instrumentação do propulsor de BB estão muito altos chegando a críticos obrigando a utilização de supressores de sinal cada vez menos intervalados.
Devido ás várias intervenções nos diversos sistemas começam a aparecer corrosões na principal tomada de combustível começando as operações de bancas a ser desconfortáveis.
Apesar das dificuldades do turno da noite o estado geral do navio durante o dia é a de uma embarcação já com um certo uso mas pintado de de fresco e ainda poderia fazer uns cruzeiros.
Hoje ao fim do dia terei inspecção da sociedade classificadora tendo grande expectativa na renovação de alguns certificados.



Doca de Alcabideche 2014-05-26  04:00

Paragem do gerador de portos muito prematuramente provocando o aparecimento de informações erradas e contraditórias nos monitores da casa da máquina tendo sido muito difícil destrinçar a informação real da totalmente irreal.
Neste momento o chefe de máquinas está sentado na sala de controlo tentando destrinçar a informação e tentar mais tarde o lançamento do gerador de porto.
(as luzes na casa da máquina estão com falhas e a abanar provocando o aparecimento de imagens fantasmas prejudicando o raciocínio e respectivas tomadas de decisão)



Doca de Alcabideche - 2014-05-25  05:00

Finalmente o gerador de portos trabalhou a noite quase toda. Teve que ser substituído pelo sistema geral devido a alarme persistente no propulsor de BB.
Este propulsor tem dado alguns problemas entrando em alarme várias vezes. Não se encontrando anomalia externa presume-se que a instrumentação esteja danificada ou então o controlador esteja com problemas com os parâmetros de programação.
Os restantes sistemas encontram-se em estado razoável embora alguns comecem a dar sinal de desregulação sendo o piloto automático um deles, uma certa dificuldade em manter um rumo constante.
Devido á imobilização forçada o quadro principal da automação entra em aquecimento excessivo e começa com comportamentos erráticos.
Aguarda-se visita da sociedade classificadora no próximo dia 26 esperando-se que sejam autorizadas provas de mar.

sábado, 24 de maio de 2014

Crónica de uma docagem

No post anterior descrevi um acidente que sofri no meu último embarque ficando a descrição limitada até ao momento do desembarque e ida ao hospital.
Os doze dias que sofri até ser operado e respectiva recuperação no hospital são questões médicas que resumo simplesmente dizendo que a operação foi de urgência pois já tinha uma excrescencia calcificada a danificar a medula.
Os textos seguintes são um modo de ver uma recuperação, os primeiros dias não estão descritos por falta de informação fidedigna, leia-se, estava com uma moca de primeira. Foram textos publicados no FB e agora para aqui transcritos.


Doca de Alcabideche - 2014-05-19

Upadate da minha docagem.
Depois de ter sido posto fora da doca seca e depois de ter exagerado numas provas de mar a sociedade classificadora caçou-me o certificado e mandou-me para cais de espera com algumas fracturas numas soldaduras feitas na conduta de passagem dos cabos de instrumentação.
Devido a avaria em vários cabos de sinais o sistema apresenta bastante ruído afectando a máquina propulsora de BB.
O sistema de monitorização do propulsor de BB está bastante instável alarmando muitas vezes, especialmente quando em condução desatendida á noite.
A inclusão de filtros e supressores de ruído na cablagem está a ter um efeito relativo.
Aguarda-se visita das seguradoras e sociedade classificadora para se efectuar avaliação da operacionalidade.



Doca de Alcabideche - update de 2014-05-21

Continua-se em cais de espera.
Prolemas na passagem de energia para o geradorde portos, o sistema cai muitas vezes por instabilidade da automação.
Necessidade urgente de aumentar o tempo de trabalho do gerador de portos para manutenção do gerador principal pois começa a dar sinais de perda de potência.
Reforço na fixação de alguma automação de modo a que o sistema de portos não dispare. Felizmente que as transições entre sistema de porto e sistema principal se faça normalmente sem blackouts.
As reparações estruturais continuam em bom ritmo e aparentemente no bom caminho.
O propulsor de BB continua com comportamento anómalo e com potência reduzida.
Aguarda-se nova avaliação pela sociedade classificadora e especialistas das marcas.



Doca de Alcabideche - 2014-05-22 06:30

Continuo no cais em reparação. As autoridades portuárias decidiram aumentar o nível de fiscalização da qualidade das reparações e as vettings são constantes.
Devido a pequenas alterações climatéricas e por causa das correntes foi reforçada a amarração para garantir uma boa imobilização.
Melhoria nos settings do gerador de porto que já conseguiu funcionar 3,5 horas sem problemas.
Devido a reforço na automação o propulsor esquerdo perdeu um pouco de potência e ficou um bocado desgovernado, considerado problema pontual soluccionado facilmente com pequenos ajuste.
Sociedade classificadora satisfeita com resultados e provavel inspecção na próxima semana.



Doca de Alcabideche 2014-05-23. 05:20

O motor de portos não arrancou. Os técnicos têm tentado tudo até com substuição de fuel mas o gerador de portos recusa-se a arrancar. Problemas na automação que faz disparar os alarmes e não o deixa entrar ao quadro.
Durante a noite sistemas em red light, causa por apurar ma presume-se por bug na automação.



Doca de Alcabideche 2014-05-24. 02:30

Gerador de portos trabalhou duas horas e voltou a parar.
É imperativo que o gerador de portos funcione razoavelmente para a boa finalização das outras reparações.
Nos outros sistemas mantêm-se os mesmos problemas.
Alguma melhoria na generalidade.



Doca de Alcabideche - 2014-05-24 05:00

Durante operação de descarga de sewage grave anomalia nos giroscópicos afectando o heeling fazendo o navio adornar a angulos críticos.
Propulsor de BB continua com falta de potência e com alarmes no vermelho.
Problemas com os radares pois começam a dar muitos ecos falsos especialmente no período nocturno.
Espera-se pela mudança de turno das 08:00 para as operações de rotina.



Doca de Alcabideche - 2014-05-24 11:00

Com o turno da manhã o estado geral da instalação manteve-se estável.
Apenas o propulsor de BB continua a apresentar problemas especialmente no cardan anterior ao hélice em que as chumaceiras estão aquecer acima do admissível estando neste momento em alarme. Continua a dúvida se é a automação desregulada ou se existe mesmo dano no cardan.
A imobilização ao cais tem sido reforçada com mais uns cabos de amarração e a autoridade portuária tem feito inspecções constantes, foram já emitidas alguns autos de mau comportamento.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Acontece ás vezes.

No dia 25 de Abril de 2014, tendo o facto de se ter passado nesta data pura coincidência, desci cedo á casa da máquina para uma rápida intervenção.
No dia anterior tínhamos zarpado de Ponta Delgada rumo a Lisboa ficando a faltar duas viagens para o meu período de férias que se previa iniciar a 28 de Maio, mais uma coincidência de datas. Navegávamos há já umas horas quando ao dar a minha última volta pela instalação por volta das 23:00 noto um ruído estranho na parte de ré / EB do motor principal junto ao volante. Não descansei enquanto não descobri a origem. Apenas umas abraçadeiras que fixavam duas tubagens de drenos soltas e que provocavam o tal ruído, não era grave e poderia esperar pelo dia seguinte. Já não caí no erro de executar tarefas sozinho numa casa da máquina á noite.
No dia seguinte tomei o usual pequeno almoço ligeiro e dirigi-me á casa da máquina para fechar o ponto que tinha em aberto.
Chamei um dos ajudantes e pegando numas abraçadeiras de plástico dirigi-me á parte de ré da máquina. Chegando ao local expliquei ao ajudante o que se passava para ele poder perceber o problema causa e efeito, tinham passado por lá e não tinham reparado em nada e de seguida abaixei-me para fixar aquilo com a tal abraçadeira de plástico. Ia ser uma intervenção de recurso pois aquela área era perigosa, ao lado de um volante a rodar a 500 rpm.
Ao abaixar-me senti uma pontada dolorosa nas costas que me descia pela perna esquerda abaixo. Endireitei-me e tentei novamente mas a dor não o permitiu, dei então a abraçadeira ao ajudante para fixar os tubos com ordens de só voltar a tocar naquilo uma vez parados em porto.
Regressei ao camarote para ir á casa de banho e já não consegui sair. As dores tornaram-se incapacitantes e foi com um esforço muito grande que me arrastei para o sofá onde me deitei em posição fetal sobre a direita. Essa posição era a única que me deixava respirar sem gritar.
Passado uma hora e com um Clonix tomado as dores não diminuiam e tive de tomar a decisão de pedir ajuda o que se tornou extremamente penoso pois obrigou-me a deslizar para o chão e rastejar até ao telefone.
A partir desse momento só tenho ideia de dor, o navio tinha um rolo ligeiro que me incomodava imenso, a vibração no camarote era asfixiante e a minha posição fetal no sofá era a única que me dava um certo alívio.
No dia seguinte o comandante comunicou á companhia o meu estado, eu teria de desembarcar para pelo menos ir ao hospital. Quando as dores eram terríveis e insuportaveis pus a hipótese da evacuação mas só de imaginar o sofrimento de ir em maca até aos topos dos contentores para ser evacuado numa fracção de segundo pus essa hipótese de parte, eu nunca aguentaria estar deitado na maca de barriga para cima, vi isso quando fiz o Rx mais tarde no hospital.
Aguentei então até chegarmos a Lisboa tomando Clonix com Brufens com Ben-U-Rons, tudo o que dizia que era contra as dores só que talvez tenha espaçado demais as tomas.
Quando o navio se aproximava da barra de Lisboa e o sinal de telemóvel já era suficiente telefonei á minha mulher para me ir buscar e levar ás urgências do hospital de Cascais. Preferi esta solução para estar mais perto de casa e facilitar o apoio que a minha mulher me pudesse dar.
E assim desembarquei de urgência tendo sido operado de urgência á coluna doze dias depois, doze dias de Inferno na Terra.
Apenas a quarta vez que desembarco de um navio para ir para um hospital, a primeira em que fiquei impossibiltado de regressar ao meu navio e terminar um contracto.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Descendo á doca

Apenas um pormenor da descida a uma doca-seca. As escadas e o navio a seco, mostrando a dimensão.
Esta é uma doca pequena e o navio não é dos "grandes"


by: jimmy the sailor

Debaixo do navio

Numa "docagem" uma das situações que eu gosto é a de estar debaixo de um navio, sentir aqueles milhares de toneladas de aço por cima de mim. Claro que faz de um estaleiro a sua vida isso é corriqueiro. Para mim, que vou lá numa média de dois em dois anos é sempre uma sensação.

Uma pequena voltinha debaixo do Madeirense 3 em docagem na Naval Rocha em Lisboa.


Espero que "sintam" o mesmo que eu.

by: jimmy the sailor

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Locking a drydock

Depois de entrar na Naval Rocha a manobra de fechar a doca para a esvaziar.....


Por: Jimmy the Sailor

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Passeio pelo convés.

Como já o tinha feito para a casa da máquina resolvi então fazer uma volta pelo convés. Saí para a proa pelo lado BB e regressei pelo lado EB.


Mais um pequeno apontamento da vida a bordo.

By: Jimmy The Sailor

Uma ronda pela casa da máquina

Todas as noites, antes de me deitar dou uma volta sumária pela casa da máquina, ver níveis e se está tudo em condições. Uma volta para eu poder dormir descansado.
Noutro dia ao faze-lo decidi levar uma pequena "action cam" e filmar a ronda. Dá uma pequena perspectiva do interior de uma casa da máquina.


Pequenos pedaços de vida a bordo apenas.

By: Jimmy The Sailor