domingo, 12 de abril de 2015

Action Cam

Jonas! Que fazes? Pergunta Jaime com preocupação vendo o seu colega indo para o convés.
Jonas estava armado de sua "action cam" e dirigia-se para o convés debaixo de uma tempestade brutal, o mar galgava o convés e varria-o de bombordo a estibordo arrastando tudo o que se encontrava solto. Já se tinham perdido vários bidões de óleo que tinham ficado mal estivados, os cabos que os peavam tinham rebentado. O óleo derramado, espalhado no convés agarrava-se pastoso e escorregadio ás chapas do convés esperando que uma vaga mais forte o arrancasse e o levasse para o mar. Pequenas peças de peamento encontravam-se espalhadas ao longo do chão marcando o fluxo da água do mar que tudo arrastava. Era um cenário de destruição a raiar o apocalíptico. O comandante já tinha reduzido a máquina e mudado o rumo para um de mais feição para aguentar a força da tempestade. O silêncio a bordo era sepulcral tal era a preocupação de toda a tripulação, o mar estava mesmo bravo e o navio não era novo.
Apenas Jonas não pensava assim, estava apaixonado pela fotografia e pequenos filmes, pequenas notas dizia ele. E esta tempestade era o momento tão esperado para a poder documentar com imagens. Mal apanhou uma aberta, equipou-se com a sua "action cam" e saltou para o convés para filmar a realidade de uma tempestade. Jonas era uma pessoa impulsiva, reconhecia e media o perigo mas gostava de o desafiar, aborrecia-o apenas o facto de fisicamente não estar nas melhores das formas mas isso não o impedia de seguir em frente com o seu projecto para no fim o exibir como um troféu, exibia-o com um sorriso de criança traquina.
Estava frio, o vento era gelado, carregado de farripas de água cortante, Jonas vestiu uma parka para se proteger, para proteger o peito do frio que se fazia sentir. Começou as descer as escadas que davam acesso ao deck analisando o comportamento da água, o seu objectivo era atingir a área entre os porões e ter acesso aos dois bordos do navio e poder escolher o que fornecesse melhores imagens.
Deu os primeiros passos em corrida e ficou com os pés encharcados, a água corria louca com uns bons centímetros de altura escorrendo pelas aberturas laterais, a água estava a entrar bem pelo lado de estibordo Jonas tinha que se apressar, os corredores laterais eram umas armadilhas mortíferas, numa viagem anterior um homem tinha sido arrastado e só não se perdeu porque conseguiu agarrar-se ao varandim. 
Escolhido o seu posto, uma zona protegida pelos grandes macacos hidráulicos para a abertura dos porões, escolhidos os pontos de apoio para se agarrar em caso de necessidade Jonas começou a filmar. Com grande desgosto o mar pareceu acalmar de repente, a água não subia, as vagas eram ralas, o navio seguia direito e nada acontecia. Jonas foi fazendo pequenas notas de filmagem mas as imagens obtidas eram nada, não conseguiam mostrar a força da tempestade.
O frio e os pés molhados começavam a incomodar mas Jonas não arredava pé quando se apercebe, lá á proa no navio se começa a desenhar uma vaga maior. Preparou a máquina, começou a filmar de imediato, mais tarde poderia cortar o que não interessava. Jonas usava uma haste para segurar a câmera de modo a que ela estivesse no corredor de estibordo mantendo-se abrigado atrás dos macacos. Ia espreitando para ver o andamento do mar quando de repente o navio dá um salto e inclina-se todo a estibordo fazendo com que uma vaga entrasse á proa e começasse a varrer tudo á sua frente. O impacto da água na máquina foi tremendo mas a haste aguentou mas a imagem vacilou ficando tudo submerso. Jonas ficou encharcado, a previdência de ter estado protegido e agarrado fez com que não tivesse saído pelos escoadouros a ré do deck.
Jonas tinha a imagem que queria mas sem baixar a guarda esperou por uma boa aberta e refugiou-se no casario.
Mal viu um membro da tripulação Jonas com um sorriso de menino traquinas foi mostrar o filme da sua última traquinice. Os sons de exclamação do pessoal ao ver as imagens eram música para o seu ego.
Mais tarde foi compor o seu filme e publicá-lo numa rede social. Estas coisas só têm piada quando são mostradas.  

terça-feira, 7 de abril de 2015

Passeando no deck


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quarta-feira, 1 de abril de 2015

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Uma viagem

Acordei cedo, muito cedo mesmo, estava cheio de dores. O navio nesta viagem vai um bocado vazio e por causa disso vibra um pouco mais que o normal, o normal já é muito mau. O navio além de vibrar tem um casario alto cuja estrutura base é ligeira fazendo com que funcione como um amplificador de vibrações, está-se melhor na casa da máquina ao lado dos motores do que no meu camarote, cinco pisos acima.
Já durmo no sofá para diminiur o efeito da vibração no meu organismo mas não escapo, todas as noites acordo de madrugada com dores nos rins, na próstata, na bexiga, nas costas, dormências na perna esquerda, já o trivial. O problema de acordar é que eu dificilmente volto a adormecer, acordo, dou umas voltas, casa de banho, bebo água, umas voltas, deito-me e fico de olhos abertos a olhar para o tecto.
Desta vez enquanto dava essas voltas todas resolvi espreitar para o exterior, era madrugada, o dia ia nascer, fui espreitar.
E consegui arrancar o suporte da cortina que com muitas imprecações e promessas de arraiais de porrada lá consegui fixar aquilo de novo e voltei a olhar para o exterior. A cor era espantosa, prometia um belo nascer do Sol. Arranjei-me, peguei na máquina e fui para o exterior.
Cá fora o ar estava fresquito mas aguentava-se bem, de pé ia tirando umas fotos, afinando a máquina, as aberturas velocidades e ISO e comecei a eserar pelo nscer do sol, queria apanhar o primeiro raio que despontasse.
De pé esperava e comecei a reparar na dificuldade de focar o meus olhos, fiz u esforço e vi que eles até nem focavam mal mas a vibração que eu sofria desfocava-me a vista. Estava de pé e a vibração do chão subia-me pelas pernas acima, percorria-me o corpo e chocalhava-me a cabeça, os maxilares vibravam. Fiquei felicíssimo da vida, mais umas histórias para contar ao meu gato Fu á lareira nas longas noites de Inverno.
O momento aproximava-se, o clarão do Sol que antecede o seu nascimento ía aumentando de tamanho e intensidade e eu disparava a máquina, queria apanhar aquele momento.
Era agora... e apanhei com uma baldaça de água na cabeça. O marinheiro de serviço estava no piso superior a lavar as passarelas e não me tinha visto. Dei um salto para o lado e fotografei mas perdi o momento por um ou dois segundos. Sabem uma coisa, não fiquei furioso, achei piada, como as coisas são, como a vida é. Consegui apesar de tudo fotografar um bonito nascer do Sol.

Antes do nascimento

Depois do nascimento e do banho

O resto do dia foi normal, esteve bonito e de mar calmo. Á tardinha voltei a equipar-me e fui até á ponte, ali não apanharia água na cabeça de certeza e podia despedir-me do meu amigo Sol...



E assim acabou o dia, a noite voltou a cobrir a Terra com o manto negro da escuridão polvilhado de estrelas.